segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O TERRÍVEL ANCIÃO



                                                  O TERRÍVEL ANCIÃO
                                                     Por H. P. Lovecraft     

A intenção de Angelo Ricci, Joe Czanek e Manuel Silva era fazer uma visita ao terrível ancião.   Este velho homem vive sozinho em uma casa muito antiga da Rua da Água, próxima ao mar, e tem a fama de ser, ao mesmo tempo, extremamente rico e extremamente frágil.  Isto constitui uma situação muito atrativa para homens da profissão dos senhores Ricci, Czanek e Silva, que não é outra senão a digna gatunagem. Os moradores de Kingsport dizem e pensam muitas coisas sobre o Terrível Ancião. Coisas que, em geral, o protegem das atenções de cavalheiros como o senhor Ricci e seus companheiros, apesar da quase absoluta certeza de que ele esconde uma fortuna de indefinida magnitude em algum lugar de sua mofada e venerável vivenda. Ele é, em verdade, uma pessoa muito estranha, de quem se acredita que fora, em juventude, capitão de veleiros das Índias Orientais.  É tão velho que ninguém se recorda dos tempos em que era jovem, e tão taciturno que poucos sabem o seu verdadeiro nome.  Entre as árvores retorcidas do jardim da frente de sua velha e descuidada residência, conserva ele uma estranha coleção de grandes pedras, singularmente agrupadas e pintadas de forma a parecerem com os ídolos de um lúgubre templo oriental. Tal coleção afugenta a maioria dos garotos que zombam de sua barba e de seu cabelos, longos e brancos, ou que quebram as janelas de pequenas vidraças  de sua casa com malévolos petardos. Todavia, há outras coisas que atemorizam as pessoas mais velhas, de espírito curioso, que às vezes se aproximam furtivamente da casa para bisbilhotar pelas vidraças empoeiradas.  Estas dizem que sobre a mesa de uma sala vazia do térreo há muitas garrafas peculiares, e dentro delas um pedacinho de chumbo suspenso por um fio, à semelhança de um pêndulo.   E dizem que o Terrível Ancião conversa com essas garrafas, chamando-as por nomes como Jack, Cicatriz, Tom Grandão, Joe Espanhol, Peters e Mate Ellis;e que, sempre que fala com uma delas, o pequeno pêndulo interior emite umas vibrações precisas, como se manifestassem em resposta. Aqueles que tinham visto o alto e macérrimo Terrível Ancião numa dessas singulares conversações jamais voltaram a vê-lo novamente. Mas Angelo Ricci, Joe Czanek e Manuel Silva não tinham sangue de Kingsport. Pertenciam a esta nova e heterogênea estirpe estrangeira que ficava à margem do cativante círculo da vida e tradições da Nova Inglaterra, e via no Terrível Ancião apenas um velho trôpego e praticamente indefeso, que não podia andar sem a ajuda de uma bengala, ecujas mãos, esquálidas e débeis, tremiam deploravelmente. A seu modo, eles até que se compadeciam do solitário e impopular ancião, a quem todos evitavam e para o qual todos os cães latiam de forma singular.  Mas negócios são negócios, e para um ladrão cuja alma está em sua profissão, há uma atração e um desafio num homem muito velho e muito débil, que não tem conta bancária, e que paga pelas suas escassas necessidades,nas lojas dapequena cidade, com ouro e prata espanhóis cunhados há dois séculos. Os senhores Ricci, Czanek y Silva escolheram a noite de 11 de abril para realizar a sua visita.  O senhor Ricci e o senhor Silva entrevistariam o pobre e velho cavalheiro, enquanto que o senhor Czanek ficaria a esperá-los, juntamente com o presumível carregamento metálico, num carro coberto, na Rua do Navio, junto ao portão do muro alto,nos fundos da casa do anfitrião. O desejo de evitar explicações desnecessárias, em caso de uma aparição inesperada da polícia, engendrou os planos para uma fuga tranquila e sem alarde. Tal como haviam combinado, os três aventureiros foram à lutaseparadamente, a fim de evitar qualquer maldosa suspeita posterior. Os senhores Ricci e Silva se encontraram na Rua da Água, junto à porta de entrada da casa do ancião, e, embora não gostassem da forma como a Lua brilhava, reluzindo nas pedras pintadas que surgiam entre os galhos florescentes das árvores retorcidas, tinham coisas mais importantesa  pensar que em meras e fúteis  superstições. Temiam que poderia ser  uma tarefa desagradável fazer o Terrível Ancião falar sobre o esconderijo  do ouro e da prata, pois os velhos lobos do mar são particularmente  obstinados e  perversos. Ainda assim, era ele muito um homem velho e muito fraco,ao passo em que eles agiriam em dupla. Os senhores Ricci e Silva eram especialistas na arte de tornar volúveis os recalcitrantes, e os gritos de um frágil e mais que venerável anciãopodem ser facilmente sufocados. Logo, acercaram-se da única janela iluminada e escutaram como o Terrível Ancião conversava em tom pueril com suas garrafas com pêndulos. Em seguida, puseram máscaras e bateram educadamente à desbotada porta de carvalho. A espera parecia muito longa para o Sr. Czanek, que se agitava, inquieto, no cupê estacionado junto ao portão dos fundos da casa do Terrível Ancião, na Rua do Navio.  Tinha ele um coração mais sensível que o ordinário, e não gostou nada dos terríveis gritos que ouvira, vindos da velha casa, momentos depois da hora fixada para dar-se início à operação. Ele não recomendara aos companheiros que tratassem com a maior delicadeza o pobre velho lobo do mar?  Muito nervoso, ele observava a estreita porta de carvalho no muro de pedra coberto de hera.  Consultava frequentemente o relógio e perguntava-se o motivo da demora. Teria o velho morrido antes de revelar onde o tesouro estava escondido, tornando necessária uma minuciosa busca?  Desagradava o senhor Czanekter de esperar tanto tempo no escuro, e justamente num lugar como aquele. Em seguida, percebeu passos suaves ou arrastar de pés no passeio no caminho que havia além do portão, e ouviu que alguém descerrava suavemente o trinco enferrujado, vendo abrir-se para dentro o pesado e estreito portão. E no pálido brilho da lâmpada que iluminava a rua, forçou a vista para verificar o que os seus companheiros haviam furtado daquela casa sinistra, que agora lhe parecia imensa.  Mas não viu o que esperava. Não estavam ali os seus companheiros, mas o Terrível Ancião, que se apoiava, com ar sereno, em sua bengala nodosa, e sorria malignamente.  O senhor Czanek nunca atentara para a cor dos olhos daquele homem. Agora via que eram amarelos. As pequenas coisas causam comoção considerável nas cidades pequenas. Esta é a razão pela qual os habitantes de Kingsport, durante a primavera inteira e por todo o verão seguinte, não deixaram de falar sobre os três corpos não identificados, horrivelmente mutilados – como se talhados a cutelo – e horrivelmente esmagados – como se pisoteados por botas cruéis –, trazidos pela maré. E algumas pessoas até falaram de coisas tão triviais como um carro abandonado, encontrado na Rua do Navio, ou de certos gritos especialmente inumanos, provavelmente de algum animal extraviado ou de um pássaro migrante, ouvidos pelos cidadãos ainda acordados. Mas o Terrível Ancião não demonstrou o mínimo interesse por esses ociosos rumores provincianos.  Era ele reservado por natureza, e quando se é idoso e se tem uma saúde delicada, a discrição é duplamente acentuada. Além disso, um lobo do mar tão revelho deve ter presenciado coisas muito mais excitantes nos longínquos dias de sua já esquecida juventude. 
Versão em português por Paulo Sorianoapartamento para alugar em santos

A BRUXA


                                                                                      A BRUXA

No México as histórias de bruxas são comuns e, principalmente as pessoas mais antigas, conhecem algum “causo” contendo estes seres apavorantes. Dizem que no inicio dos anos 60, em uma pequena cidade no México, vários bebês nasceram na mesma época.

Esta mesma cidade era assombrada por uma mulher asquerosa, que todos diziam ser uma bruxa e adoradora do mal. Ela costumava sair para os campos durante a noite, quando todos estavam dormindo para praticar suas bruxarias. Alguns agricultores alegaram que ela sempre era vista caminhando pelos campos, quando eles , alertados pelos barulhos dos animais , espiavam pelas frestas das janelas.

Porém , apesar da assustadora presença, os moradores não se preocupavam muito com ela, pois até aquele tempo ela não havia feito nenhum mal aos moradores da cidade, até que algo terrível aconteceu....

Uma noite um casal dormia com seu bebê entre eles. Eles eram tão pobres que não podiam pagar um colchão e usavam um tapete como sua cama. Os pais não dormiam muito perto de seu bebê, pois tinham medo que eles acidentalmente se mexessem e machucassem seu filho.

O bebê chorava e a mãe acordava e tentava colocá-lo de voltar a dormir. Sempre que ela ia dormir de novo ouvia o bebê chorar mais uma vez. Ela acordava e fazia o mesmo de antes. Isto ocorria por várias vezes e a mãe acabou ficando irritada, pois estava muito cansada naquela noite. O pai dormia e estranhamente, não acordava com o choro do beber. Sem paciência, quando na quinta vez que o bebê chorou a mãe decidiu ignora-lo pensando que logo ele dormiria.

O bebê chorou por mais alguns minutos e a mãe continuou a ignorar o seu bebê até que ela ouviu alguém andando na rua. Ela ouviu a porta ranger e abrir lentamente. Ficou uns instantes, pensando que o barulho na porta tinha sido apenas uma impressão quando percebeu que seu filho havia ficado quieto e ela pensou que finalmente ele estava dormindo.

Quando a mãe fez um carinho no filho , percebeu que ele estava muito gelado, então ela o pegou no colo e emitiu um grito de gelar o sangue, tão alto que foi o suficiente para acordar até os seus vizinhos que moravam em uma casa próxima. As pernas e braços estavam todos arranhados e o bêbe estava desfalecido.

Acordado com o grito da mulher o homem saiu correndo na rua gritando desesperadamente: "- A bruxa! A bruxa atacou meu filho, ela atacou meu filho!

A mãe orando e com a criança junto ao peito jurou que havia ouvido uma mulher rindo ao longe.... Felizmente a criança se recuperou, apesar de manter algumas cicatrizes.

Depois disso muitos pais levavam suas crianças para perto deles quando dormiam. Às vezes, as crianças choravam no meio da noite e as mães começavam a reza para espantar a bruxa.

Outros relatos de crianças atacadas foram ouvidos pela cidade e muitos deixaram o local se mudando para cidades mais afastadas. Ninguém teve coragem de ir atrás da bruxa e fazê-la responder pelos ataques....

Até hoje dizem que o local é assombrado pela mulher que, as vezes, é vista andando pelos campos durante a noite. E o maior temor dos pais é ouvir seus filhos chorando, todos correm até eles imaginando que a bruxa está atacando novamente....

By A. Luciano baseado em um relato mexicano


domingo, 22 de novembro de 2015

Possível Fantasma na Foto da Família Perron

Possível Fantasma na Foto da Família Perron

Recebemos um e-mail da leitora Anna Katrynny de Goiania
 nos dizendo que ao observar uma das
fotos da família Perron na matéria
Harrisville: A História Real do Filme “Invocação do Mal”
identificou
 o fantasma de um garotinho.

E não é que ali, na janela ao lado do casal Perron, aparece o rosto de
 um garotinho do lado de
dentro da casa?! Veja:














Preste atenção,
    não é difícil de ver...
    veja abaixo com zoom:


Seria esse um dos fantasmas amigáveis que habitavam a casa? Talvez o garotinho que empurrava
 brinquedos
 pela casa? Ou seria o espírito da criança que choramingava pela casa chamando a mãe???

A VIRGEM DO POÇO



                                         A Virgem do Poço 
Havia no Japão Feudal do século XVII uma bela jovem de nome Okiko. Essa jovem era serva de um Grande Senhor de Terras e Exércitos, seu nome era Oyama Tessan. Okiko que era de uma família humilde, sofria assédios diários de seu Mestre, mas sempre conseguia se manter longe de seus braços. Cansado de tantas recusas, Tessan arquitetou um plano sórdido para que Okiko se entregasse à ele. Certo dia, Tessan entregou aos cuidados de Okiko uma sacola com 9 moedas de ouro holandesas -mas dizendo que havia 10 moedas- para que as
guardasse por um tempo. Passado alguns dias, Tessan pediu que a jovem devolvesse as "10" moedas. A donzela, ao constatar que só havia 9 moedas, ficou desesperada e contou as moedas várias vezes para ver se não havia algum engano. Tessan se mostrou furioso com o "sumiço" de uma de suas moedas, mas disse que se ela o aceitasse como marido, o erro seria esquecido. Okiko pensou a respeito e decidiu que seria melhor morrer do que casar com seu Mestre. Tessan furioso com tal repúdio, agarrou a jovem e a jogou no poço de seu propriedade. Okiko morreu na hora.
Depois do ocorrido, todas as noites, o espectro de Okiko aparecia no poço com ar de tristeza, pegava a sacola de moedas e as contava... quando chegava até a nona moeda, o espectro suspirava e desaparecia. Tessan assistia aquela melancólica cena todas as noites, e torturado pelo remorso, pediu ajuda à um amigo para dar um fim àquela maldição.
Na noite seguinte, escondido entre os arbustos perto do poço, o amigo de Tessan esperou a jovem aparecer para dar fim ao sofrimento de sua alma. Quando o fantasma contou as moedas até o 9, o rapaz escondido gritou: ...10!!! O fantasma deu um suspiro de alívio e nunca mais apareceu.
Essa Lenda do século XVIII,  é uma das mais famosas do folclore japonês. 

OS RUÍDOS DA MORTE

Os ruídos da morte
Extraído do Livro chamado: "O Livro dos Fenômenos Estranhos" de Charles Berlitz
Os habitantes das ilhas Samoa acreditam que, quando a morte se aproxima, pancadas secas paranormais são ouvidas na casa da vítima.
Esse estranho fenômeno já foi chamado de ruídos da morte, e sua existência representa mais do que mero folclore.
Genevieve B. Miller, por exemplo, sempre ouviu esses estranhos ruídos, principalmente na infância. As pancadas ocorreram durante o verão de 1924 em Woronoco, Massachusetts, quando sua irmã, Stephanie, ficou acamada com uma doença misteriosa.
Enquanto a menina permanecia na cama, ruídos estranhos, semelhantes a batidas feitas com os dedos, ecoavam pela casa. Eles soavam de três em três, sendo que o primeiro era mais longo do que os outro dois.
Certa vez, o pai de sra. Miller ficou tão irritado com os ruídos que arrancou todas as cortinas das janelas da casa, culpando-as por aquele barulho infernal. Contudo, essa demonstração de nervosismo de pouco adiantou para terminar com aquele sofrimento.
No dia 4 de outubro, já se sabia que Stephanie estava morrendo. Quando o médico chegou, ele também ouviu as pancadas estranhas.
- O que é isso? - perguntou, voltando-se para tentar descobrir a fonte do barulho.
Quando se virou novamente para a pequena paciente, ela pronunciou suas últimas palavras e morreu. As pancadas diminuíram a atividade após a morte de Stephanie, porém nunca chegaram a parar de todo. Elas voltaram, ocasionalmente, quando a família se mudou para uma casa nova.
Então, em 1928, o irmão de Stephanie morreu afogado quando a superfíc ie congelada de um rio, sobre a qual caminhava, quebrou-se. A partir dessa época, os ruídos da morte nunca mais foram ouvidos.

TOC TOC

                                                       
                                                          TOC! TOC!
                                                      Por Wagner Silva  

Toc! Toc! 
Lentamente as trevas começam a se dissipar e ele sente seu corpo sendo tomado pela consciência novamente. Sente as falanges dos dedos formigarem levemente. Os olhos vão se abrindo. Ao contrário do que é de se esperar, a luz não lhe ofusca a vista. Na verdade não há luz nenhuma. De pleno domínio do seu corpo, de olhos abertos, tudo o que vê é a escuridão. Está deitado de barriga para cima. As coisas lentamente começam a tomar forma na penumbra. Conforme seus olhos vão se acostumando com a falta de luz, ele consegue perceber os vultos ao seu redor. Distingue a estante de seu quarto,  onde ficam seus cd´s, revistas e o aparelho de som. Distingue também a cômoda, onde fica seu velho aparelho de TV de 19 polegadas. Seu quarto é a sua fortaleza e seu refúgio, um lugar que deveria lhe trazer a sensação de segurança  e proteção. Deveria! Toc! Toc! O barulho o coloca em total estado de alerta. Com os músculos contraídos, e os batimentos cardíacos acelerados. Sentiu o coração pulsando em sua garganta. Suas pupilas estão dilatadas e ele faz um esforço pra tentar enxergar melhor em meio aos vultos. Estaria ele sonhando? Infelizmente ele sabia que não. Toc! Toc! É uma casa mista, paredes externas de material  e as repartições internas de madeira. Três quartos, o dele, o dos seus pais e entre eles um quarto vago para receber visitas. Fica em um bairro residencial tranqüilo. Algumas vezes tranqüilo demais, quase deserto. Normalmente após as 23 h não há mais viva alma perambulando por suas ruas. O vizinho do lado fica a cerca de 30 metros de distância, com um muro alto no meio. O Vizinho da frente tem um terreno enorme e uma casa construída nos fundos. A sua casa era isolada das demais. Poucas horas antes, por volta das 20h, aproveitando que seus pais viajaram, recebeu um pequeno grupo de pessoas. Um amigo e duas amigas para ser mais exato. As meninas ficaram pouco tempo e antes das 22h, já haviam partido levando consigo a esperanças dos garotos terem algum sexo naquela noite. Ele e seu amigo ficaram por cerca de uma hora bebendo algumas cervejas e fumando um baseado. Até que por volta das 23:30h seu amigo também se foi. A pequena sala ficou ornamentada com latas de cerveja, bitucas de cigarro e restos de maconha. A arrumação poderia esperar até a manhã seguinte, pois seus pais ainda ficariam dois dias fora. O cheiro do baseado ainda impregnava a casa. Ele foi se deitar meia noite. Devem ter se passado duas horas e meias no máximo. Poderia seu amigo ter voltado por algum motivo e estar batendo à sua janela? Não! O barulho não era de batida em vidro, mas de batida em madeira. Poderia alguém estar batendo à porta? Não, pois mesmo ignorando o fato do portão estar cadeado,  caso fosse alguém à porta, as batidas soariam abafadas pela distância e no entanto, era como se as batidas estivessem muito perto. Assustadoramente perto.  Quase dentro da sua cabeça. Toc! Toc! Uma leve descarga de choque, proveniente do susto, percorre seu corpo. As batidas são dentro da casa. Estão batendo na parede do quarto. Não são batidas fortes. São bem leves, como se alguém estivesse batendo com os nós dos dedos na parede. Leves mas com intensidade suficiente para ter o acordado. Ainda deitado ele aguça a audição para tentar identificar o ponto exato de onde vem o barulho. Mas então, não há mais barulho nenhum. Um súbito silêncio invade o quarto. A esta altura, sua visão já está completamente adaptada a escuridão. A pouca luz vem do poste na rua e atravessa a grossa cortina de lona. Já reconheceu cada móvel e objeto do seu quarto. Aparentemente está tudo em seu lugar. Aparentemente ele esta sozinho no quarto. Mas em sua mente, uma voz insiste em lhe soprar aos ouvidos “as aparências enganam”. Durante uma fração de segundos ele calcula sua posição e mapeia mentalmente o seu quarto. Num súbito movimento, levanta dá dois passos em direção a porta, bate a mão no interruptor e se joga novamente pra trás na direção da sua cama, onde se cobre. É uma cena ridícula, coberto com o edredom em forma de capuz, deixando apenas uma fresta para espiar o quarto, como se estivesse envolto em um manto mágico que o protegesse de todos os perigos. Luz acesa,  o quarto em ordem, a porta fechada. Tudo da mesma forma que estava quando ele foi se deitar. Toc! Toc! Desta vez conseguiu identificar de onde veio o barulho. Veio da parede, logo atrás da sua TV. Veio do aposento ao lado, do quarto de visitas. Ladrão? Muito pouco provável. O bairro era tranqüilo, assim como a cidade e toda a região.  Há anos não se tinha notícia de roubo de qualquer espécie por ali. Algum animal de estimação? Nem ele nem seus vizinhos próximos possuíam gatos ou cachorros.  Além do mais, não teria como um bicho entrar sem ser percebido. Tenta organizar os pensamentos de forma lógica e analisar as possíveis alternativas. Fugir pela janela? E depois, ir pra onde? Pedir ajuda pra quem? Falar  o quê? Dizer que escutou um barulho dentro de casa e saiu correndo? E se alguém vier ajudar e vir as bebidas e os baseados na sala? Ficar na rua até amanhecer? Do que adianta, o que está fazendo o barulho agora, provavelmente continuará a fazer depois que o Sol raiar.  Se admitir que o barulho vai sumir com o dia claro, é o mesmo que admitir que o que causa o barulho só estaria lá durante a noite. Seria admitir que o barulho não é natural. Seria admitir que ele esta acreditando em coisas sobrenaturais. Acreditando em assombração. Infelizmente  sozinho e assustado, assombração é a única explicação que passa na sua cabeça. Tentando  controlar o medo, que ainda está num estágio controlável, analisa suas opções: ficar a noite toda apavorado ou descobrir o que está fazendo o barulho. “Não sou mais criança” pensou ele. “ se for alguma assombração, não vai ser a parede que vai impedir de me atacar. Se não for... se não for... Mas é claro que é! O que mais estaria batendo na parede? Com certeza tem um demônio, ou uma mulher vestida de branco com a faca na mão só esperando que eu vá até lá pra me pegar e...” Toc! Toc! –Puta que pariu! Sussurra ele ao mesmo tempo em que dá um pulo de susto. Na sua mente já podia ver a mulher com um vestido branco esvoaçante, com os cabelos louros balançando ao vento e com a ponta da faca batendo contra a parede. Toc! Toc! – T-tem  alguém aí? Pergunta ele, com a voz fraca e trêmula. As palavras saem arranhando sua garganta que está seca, devido ao fumo e a tensão que sente. –  Quem tá aí? Arrisca novamente, dessa vez com um tom mais firme. Novamente a resposta é apenas o silêncio. Levanta-se da cama, ainda enrolado na coberta e caminha lentamente até a porta. Com a mão firme, segura a maçaneta e começa a girar levemente para fazer o mínimo de barulho possível. Abre a porta formando uma pequena fresta e através dela olha para a sala, mas não é possível ver quase nada. Sentia que sua própria casa era um ambiente desconhecido e hostil. Um ambiente em que atrás de cada móvel, cada porta, poderia haver um perigo mortal e eminente, pronto para atacar a qualquer momento. Seu pavor era notável. Sentia um nó na garganta, um terrível formigamento nas extremidades dos pés e das mãos. Um frio constante e descomunal na espinha e uma sensação de vertigem no estômago, como se estivesse despencando de uma montanha russa, uma montanha russa macabra e demoníaca, cujo destino seria uma morte horrível, lenta e dolorosa. Então aqueles poucos segundos – o tempo necessário para ele tomar coragem pra sair do quarto e acender a luz da sala – parecem não ter fim. Com muito pesar ele abre um pouco mais a porta, passa exprimindo pela fresta e caminha até o interruptor da sala. No exato momento em que aperta o botão da luz, ouve o Toc! Toc! Sem saber distinguir o que de fato acontecia e as peças que sua mente lhe pregava devido ao medo, ele pode sentir – ou captar pela sua visão periférica – um vulto se aproximando. Se virou um movimento brusco e apavorado na direção do quarto de hospedes, já imaginando que ficaria cara a cara alguém ou com algo. Nada! A sala estava exatamente do mesmo jeito que ele tinha deixado antes de se deitar. Nada fora do lugar, nada fora do comum, aparentemente. Uma leve brisa soprava e entrava pelo basculante da janela, fazendo com que as cortinas dançassem de forma fantasmagórica ao sabor do vento. Como se fosse uma conspiração para deixar tudo ainda mais dramático, a porta do quarto de hospedes esta fechada. De repente, as cortinas se repuxaram e se contraíram com uma nova rajada de vento, e novamente o Toc! toc! fez seu sangue congelar nas veias. Já não conseguia falar, não tinha controle algum sobre seu corpo que não parava de tremer. Era quase como se estivesse em transe. O medo tomava conta dele, mas ainda assim sabia que iria até o fim para descobrir a fonte das batidas. A cada passo que dava atravessando a sala, a porta do quarto parecia crescer diante dele, fazendo se sentir cada vez mais indefeso. O pavor era tanto, que nem tomava uma forma única em sua mente. Enquanto levava a mão para a maçaneta da porta, divagava sobre o que iria encontrar do outro lado: o corpo de uma mulher em decomposição, com os olhos saltados pra fora e os cabelos desgrenhados... ou algum tipo de cachorro do inferno, com a baba negra e os olhos faiscantes grunhindo de forma aterrorizante... ou o próprio demônio, vestido de capa preta, com o corpo cheio de fumaça, fedendo a enxofre e carne podre.... Sentiu uma onda de calor e choque percorrerem seu corpo quando pouco antes de encostar na maçaneta uma nova rajada de vento fez com que a porta se abrisse com um leve “tec!”. Parado com a mão levemente a frente do corpo, na posição de cumprimentar alguém ou, no caso, de abrir a fechadura, viu a porta se abrir com um ranger que mais parecia um murmúrio, um lamento vindo do inferno. De imediato viu a cama. Aparentemente (as aparências enganam) tudo em ordem. Conforme a porta ia se abrindo e a luz entrando, revelava um quarto com poucos móveis, mas com tudo em seu lugar. Ninguém estivera ali. Uma escrivaninha velha, uma cortina de lona com uma madeira na base para manter esticada, a cama de casal e um guarda roupas. Por alguns instantes ficou ali parado, contemplando o quarto que agora não fazia barulho algum. Não havia nada e nem ninguém fazendo qualquer tipo de ruído ali, pelo menos não que ele pudesse ver. Teria sido um sonho? Seria possível que tivesse imaginado tudo? Uma nova rajada de vento entra pelo basculante do quarto e faz com que a cortina de lona comece a balançar. Então a madeira na base da cortina bate levemente contra o guarda-roupas. Toc! Toc! Nesse momento, foi como se alguém tivesse desligado o seu disjuntor. Toda a tensão em seus músculos se desfez de uma vez só. Apenas esboçou um sorriso bobo e murmurou: –  Filho de uma puta!

TEM ALGUÉM NA CASA

                                         
 
                                                   TEM ALGUÉM NA CASA 

                                                Por Eudes de Pádua Colodino     

- Querido, tem alguém na casa. Ao som trêmulo deste sussurro, o doutor foi tirado de seu profundo sono. Sentiu uma pontada rápida de impaciência pelo incômodo, mas foi logo invadido pela surpresa. Havia alguém na casa? Como assim? Mexeu-se na cama, causando alguns estalidos na velha armação de madeira. Parou subitamente ao som que produzira, amplificado pelo silêncio da noite. Ora, se havia intrusos na casa, devia fazer silêncio. Pegou os óculos na cabeceira, fixou o olhar no rádio-relógio: 1h30. Aguçou os ouvidos para tentar captar algum ruído que entregasse a presença do invasor. Acalmou a respiração para que pudesse ouvir o mínimo barulho não familiar e, ao estabilizar o fluxo de entrada e saída de ar em seus pulmões, pôde escutar alguns murmúrios e sinais de atividade bem sutis. Seu coração acelerou, a respiração tornou-se mais frequente e uma sensação de desespero começou a tomar forma em sua mente. Fechou os olhos e tentou se concentrar. Sabia que em momentos de estresse, o melhor era tentar manter a calma na busca pela melhor solução. Pensou em chamar a polícia. Não... O maldito celular estava dentro do carro. O telefone fixo não tinha extensão em seu quarto, e sua esposa estava com o número do celular inativo já há muito tempo. O que fazer? E se forem bandidos armados? Não se pode mais ter nada hoje em dia... Um homem que trabalha duro após anos e mais anos de estudo e dedicação ao ofício da medicina, logo menos despertaria a cobiça de algum safado, preguiçoso ladrão. Ficar parado não seria a melhor opção. Se forem bandidos minimamente espertos e um tanto mais corajosos, irão pensar que as maiores riquezas podem estar no quarto, em uma carteira ou num cofre, talvez. Pensou em sair do quarto... Tinha de ter uma arma em suas mãos. Não tinha arma de fogo, mas tinha uma pesada bengala de madeira de lei que fora de seu pai. Com certeza ela faria algum estrago na cabeça de qualquer gatuno. Levantou-se da cama com o máximo cuidado... Sua esposa estava paralisada, não emitia som algum. Devia estar aterrorizada. Caminhou descalço pelo carpete do quarto escuro, iluminado levemente de vermelho pelos números de led do rádio-relógio, que agora marcava: 1h34. Tirou a bengala do suporte em que ficava exposta na parede e se encaminhou para a saída do quarto. Pousou o ouvido na porta, podia ouvir mais claramente os passos e murmúrios dos bandidos. Sim: dos bandidos. Provavelmente, pelos seus passos, não mais que dois. Covardes... Nunca vêm sozinhos, sempre tem de ter um parceiro para dar cobertura. Contra quem? Velhos indefesos? Senhoras apavoradas? Ah, esses moleques iam ver só do que ele era feito... Ah, iam. Sentiu um calor de adrenalina subir à cabeça, encheu-se de coragem. Destrancou a porta, girou a maçaneta. O lado de fora do quarto estava um pouco mais claro pela mistura das luzes da rua e da lua que entravam pelas janelas, filtradas levemente pelas cortinas e refletidas nas paredes. Podia ouvir somente o zumbido da geladeira na cozinha, o tique-taque do velho relógio de pêndulo da família e alguns sons dos invasores. Nada mais. Na vizinhança, um silêncio sepulcral. Encostou a porta com máximo cuidado, e parou após o estalido da maçaneta. Ah, essa maçaneta miserável... Precisava denunciar seu dono justamente neste momento? Parou por um instante para perceber se havia sido notado: aparentemente não. O chão da casa era totalmente acarpetado, o que facilitava ao velho médico caminhar em silêncio. Foi pelo corredor dos quartos calculando calmamente seus passos, sem apressar-se muito. Precisava usar da cautela para que não fosse surpreendido em nenhum momento. Parou encostado na parede que fazia a curva para o banheiro e a escada. Mais uma vez, fixou sua audição na direção de onde os ruídos vinham, e sua intuição lhe dizia que estavam na sala. Refletiu sobre uma estratégia de ataque, mas se apercebeu de que não tinha nenhuma. A confiança subitamente o abandonava ao passo em que ele tentava buscar uma resposta à questão: como atacá-los sem se ferir? Mas, enquanto vacilava, ouviu leves passos na escada. Seu coração acelerou; eles iam dar de cara com ele. Ora, correr de volta para o quarto já não mais seria possível, ele denunciaria sua posição com o tropel que causaria. Tomou coragem enquanto os passos se aproximavam do topo da escada, e chegou a uma conclusão: ia tentar arremessar os bandidos pelos degraus abaixo sob pesadas bengaladas. Assim que ouviu o último passo no patamar do piso em que estava, dobrou rapidamente a curva da parede que dava de frente para a escada com a bengala em riste, pronta para fender a fronte do desgraçado que ousou violar a santidade do seu recanto. Depois se explicaria para a polícia, quando eles viessem recolher os cacos daqueles malditos. Ao dar para o patamar da escada, estacou estupefato. À sua frente, uma sombra estava parada, porém nada mais parecia ser do que somente isto – uma sombra. Não era um corpo físico, palpável, real. Apenas uma silhueta de contornos humanos. Vazia de solidez, mas repleta de escuridão. Aquela presença era composta de um negrume denso como o de uma profunda fenda, tão denso que dela parecia emanar alguma força sobrenatural que o invadiu em puro terror e desespero. Nunca antes em sua vida inteira sentira tanto pavor; e não era normal, por mais que a situação fosse tensa, aquele medo todo não vinha somente dele. A sombra à sua frente causava isto de alguma forma. Contemplá-la era como estar à beira de um abismo, pronto para o suicídio. Sua vista turvou, a cabeça pesou e o desespero fraquejou suas pernas, inclinando-o em queda sobre a sombra. Na queda, perdeu os sentidos por um pequeno instante, ironicamente recobrando-os enquanto rolava as escadas, sentindo todas as pancadas e escoriações do desabalado acidente. Seu corpo estava inteiramente mole pelo torpor que sentiu, causado pela estranha presença, não oferecendo qualquer resistência à queda. No último degrau, bateu violentamente com a cabeça na parede, emitindo um grunhido com gosto de sangue. Seu corpo inteiro doía, sentia que alguns dentes foram perdidos nos degraus e suas costelas deviam ter sofrido uma tremenda fratura. Tentou se levantar, mas o corpo não respondeu. Sua cabeça latejava. Olhou para o topo da escada, e nada mais havia lá. Respirou fundo e tossiu; sentia gosto de sangue. O acidente foi severo. Tentou gritar, mas a voz não lhe saía. Apenas gemidos incompreensíveis saiam de sua boca semicerrada. Seria aquele o seu fim? Ouviu um barulho próximo dele, ao lado. Virou os olhos para aquela direção, e a tal sombra mais uma vez estava lá, imóvel, voltada para si. Apavorado, fechou os olhos e tentou mais uma vez se levantar, mas sem sucesso. Ele inteiro era pura dor... Permaneceu caído em uma posição esdrúxula e em silêncio, e assim acabou por divisar melhor os ruídos que vinham daquilo que ele imaginou serem ladrões, mas que na realidade era a sombra cuja natureza ele não podia compreender: era um murmúrio ofegante, abafado, mas estranhamente familiar... Oprimiu a memória para reconhecer onde ouvira este som. Ora, de onde seria...? Sim! Com algum esforço reconheceu o que era; um garotinho de cinco anos com diagnóstico provável de meningite, pobrezinho, sabe-se lá por quem trazido ao pronto-socorro em que dava plantão por volta de duas semanas atrás. O menino estava sozinho e quase inconsciente, numa maca no corredor do hospital lotado, murmurando alguma coisa entre sua respiração ofegante e apressada. Naquele dia, o médico estava no fim de seu exaustivo plantão, tremendamente estressado. Pediu ao enfermeiro que aplicasse um analgésico no menino e que repassasse o caso ao próximo plantonista, pois naquele dia ele não queria sair atrasado. Puxa vida, um homem tem direito a um dia ruim? Ou não? Ele era somente um homem, nada mais. Mas, sem querer, decretara a sentença de morte do garoto. O próximo plantonista atrasou-se, e apenas constatou o óbito do menino. O peso dos anos de ofício médico era nocivo para ele; não conseguira se emocionar. E não refletiu a respeito. Era somente mais um caso de óbito entre tantos outros, em que suas possibilidades eram limitadas pela precariedade em que exercia sua profissão, ou pela precariedade de sua condição psicológica. Arrependeu-se, mas já era tarde demais. Sabia que, por causa de sua omissão, aquela era a sua hora, e seu destino não seria nada bom. Era um desgraçado. Pensou em sua esposa, sentiu sua falta. Cadê a velha, que não veio ver o que lhe ocorreu? Estava em uma situação deplorável, precisava de ajuda... Não... Ele era viúvo. Já há mais de um ano. E estava sozinho na casa. Bom, agora não mais. Fora acordado por um devaneio, ou seria o fantasma de sua esposa um partícipe na trama pela sua morte? OK, ele nunca fora um bom marido... Sempre cobrou um filho de sua estéril esposa, e ele nunca a deixou esquecer sua decepção. A mulher fora triste a vida inteira, depressiva... Até que um câncer a levou após anos de muito sofrimento, em que ele pouco ajudou ou apoiou. E agora, ali, destruído por um acidente, chegou à conclusão de que aquela seria sua derradeira noite. A morte do pobre rapazinho foi a gota d'água que transbordou o copo cheio de omissões e egoísmo que foi a sua vida, tanto pessoal quanto profissional. No fundo, ele merecia aquilo. Se esta pena fosse sobre outra pessoa, ele diria que foi bem feito. Sentiu-se o pior homem da história, sua vida inteira foi uma farsa. Como médico, salvou algumas vidas, mas poderia ter feito mais. Tornou-se insensível ao sofrimento alheio, envelheceu, esfriou. Agora, receberia sua paga. Olhou para a sombra que velava sua lenta morte. Sentia aos poucos a vida sair de si, e o terror que sentia ia se transformando em resignação. Estava entregando sua vida às mãos da morte negra que estava ao seu lado. Porém, ela não lhe deu o golpe de misericórdia como ele imaginou. Apenas ficou ali, imóvel, provavelmente observando a lenta agonia de sua vítima. Se era um anjo justiceiro ou um sádico demônio, ele não sabia. Mas ele ia saber o que era o verdadeiro sofrimento somente após algumas horas. Ao amanhecer, estava morto. Livre de seu corpo finito, porém acorrentado ao que viria depois. Sua alma foi carregada pela sombra, levada em incrível temor e pânico a um abismo tão escuro quanto o que compunha a matéria de seu algoz. Seu destino eterno estava selado. Sua desgraça não teria mais fim.exercicios para emagrecer

sábado, 21 de novembro de 2015

TESOURO MACABRO



                                      Tesouro macabro
A história que contarei a seguir é sobre dois amigos de infância, Pablo e José. Os dois eram mexicanos e andarilhavam em direção de San Juan, um pequeno vilarejo na província de Chiapas.
Estava chovendo muito e os cavalos já estavam inquietos. Pablo observara uma caverna em meio às árvores e exclamou: "Veja José, uma gruta seca. Vamos usá-la como abrigo até a chuva passar." José não titubeou e seguiu seu amigo até a tal gruta. Lá dentro, os dois se abrigaram e acomodaram os cavalos. A caverna era gelada e José sentiu um calafrio que percorreu sua espinha. "Vamos sair daqui Pablo, esta caverna me dá arrepios." Balbuciou José tremendo de frio e medo. "Bobagem! Lá fora podemos até morrer naquele temporal. Aqui nós estamos secos e seguros."Retrucou Pablo.
A chuva não dava nem um sinal de cessar. José estava impaciente e Pablo curioso com a caverna. "Vamos lá para o fundo, estaremos mais seguros lá." Entusiasmou-se Pablo. "Estas louco homem, podemos nos perder naquela escuridão." Protestou José. "Covarde! Vamos lá, seja homem pelo menos uma vez nessa sua vida." Ameaçou Pablo com um sorriso sarcástico. Mesmo temendo pela sua própria vida, José segue o amigo até o fundo da caverna. Pablo, indo na frente, acende um fósforo e se surpreende com o que vê. Jogado ao chão, milhares de moedas de ouro e prata e até algumas jóias que refletiam a luz do fósforo. Junto delas, um esqueleto humano. Pablo dá uma gargalhada e grita."Estamos ricos José, ou melhor, estou rico José!" Virando-se imediatamente para o amigo e apontando a garrucha diretamente para a testa dele. Pablo dá um sorriso e vê o pavor do amigo que suplica."Não Pablo, pelo amor de Deus... nós somos amig...." E um estrondo interrompe a voz de José. Com um tiro certeiro, Pablo espalha os miolos do amigo no chão... "He, he, he...agora o ouro é só meu, todo meu." Recolhendo o tesouro e colocando-o num saco, Pablo já vai até pensando no que fazer com o dinheiro.
O tempo passa e a chuva também. Com o tesouro devidamente embalado, Pablo sai da caverna sorrindo e gozando do cadáver do amigo."Pena que você não poderá se divertir com este dinheiro companheiro." Pablo coloca o saco com o tesouro no lombo do cavalo e ruma para o vilarejo. Chegando lá, ele vai diretamente para uma pensão contabilizar o seu achado. Euforicamente, Pablo sobe para o seu quarto mal podendo conter sua alegria. Já no quarto, o homem tranca a porta e joga o saco no chão. Ao abri-lo, Pablo depara-se com uma cena inesperada e pavorosa. "Não, não pode ser !!!" Agoniza o coitado. Ao invés do tesouro, ele encontrou o cadáver rígido de seu amigo José. 

CASA DOS ROSTOS

                                                                 
                                                              Casa dos Rostos

Ao entrar em sua modesta cozinha em uma abafada tarde de agosto de 1971, Maria Gomez Pereira, uma dona de casa espanhola, espantou-se com o que lhe pareceu um rosto pintado no chão de cimento. 
Estaria ela sonhando, ou com alucinações? Não, a estranha imagem que manchava o chão parecia de fato o esboço de uma pintura, um retrato.
Com o correr dos dias a imagem foi ganhando detalhes e a noticia do rosto misterioso espalhou-se com rapidez pela pequena aldeia de Belmez, perto de Cordoba, no sul da Espanha. Alarmados pela imagem inexplicável e incomodados com o crescente número de curiosos, os Pereira decidiram destruir o rosto; seis dias depois que este apareceu, o filho de Maria, Miguel, quebrou o chão a marretadas. Fizeram novo cimento e a vida dos Pereira voltou ao normal.
Mas não por muito tempo. Em uma semana, um novo rosto começou a se formar, no mesmo lugar do primeiro. Esse rosto, aparentemente de um homem de meia idade, era ainda mais detalhado. Primeiro apareceram os olhos, depois o nariz, os lábios e o queixo.
Já não havia como manter os curiosos a distância. Centenas de pessoas faziam fila fora da casa todos os dias, clamando para ver a "Casa dos Rostos". Chamaram a policia para controlar as multidões. Quando a noticia se espalhou, resolveu-se preservar a imagem. Os Pereira recortaram cuidadosamente o retrato e puseram em uma moldura, protegida com vidro, pendurando-o então ao lado da lareira.
Antes de consertar o chão os pesquisadores cavaram o local e acharam inúmeros ossos humanos, a quase três metros de profundidade. Acreditou-se que os rastos retratados no chão seriam dos mortos ali enterrados. Mas muitas pessoas não aceitaram essa explicação, pois a maior das casas da rua fora construída sobre um antigo cemitério, mas só a casa dos Pereira estava sendo afetada pelos rostos misteriosos.
Duas semanas depois que o chão da cozinha foi cimentado pela segunda vez, outra imagem apareceu. Um quarto rosto - de mulher - veio duas semanas depois.
Em volta deste ultimo apareceram vários rostos menores; os observadores contaram de nove a dezoito imagens.
Ao longo dos anos os rostos mudaram de formato, alguns foram se apagando. E então, no inicio dos anos oitenta, começaram a aparecer outros.
O que - ou quem - criou os rostos fantasmagóricos no chão daquela humilde casa? Pelo menos um dos pesquisadores sugeriu que as imagens seriam obra de algum membro da família Pereira. Mas alguns quimicos que examinaram o cimento declararam-se perplexos com o fenômeno. Cientistas, professores universitários, parapsicólogos, a policia, sacerdotes e outros analisaram minuciosamente a imagem no chão da cozinha de Maria Gomes Pereira, mas nada concluiram que explicasse a origem dos retratos.

AS FLORES DA MORTE


                                   

                                         As flores da morte
Conta-se que uma moça estava muito doente e teve que ser internada em um hospital. Desenganada pelos médicos, a família não queria que a moça soubesse que iria morrer. Todos seus amigos já sabiam. Menos ela. E para todo mundo que ela perguntava se ia morrer, a afirmação era negada.
Depois de muito receber visitas, ela pediu durante uma oração que lhe enviassem flores. Queria rosas brancas se fosse voltar para casa, rosas amarelas se fosse ficar mais um tempo no hospital e estivesse em estado grave, e rosas vermelhas se estivesse próxima sua morte.
Certa hora, bate a porta de seu quarto uma mulher e entrega a mãe da moça um maço de rosas vermelhas murchas e sem vida. A mulher se identifica como "mãe da Berenice". Nesse meio de tempo, a moça que estava dormindo acordou, e a mãe avisou pra ela que a mulher havia deixado o buquê de rosas, sem saber do pedido da filha feito em oração.
Ela ficou com uma cara de espanto quando foi informada pela mãe que quem havia trazido as rosas era a mãe da Berenice. A única coisa que a moça conseguiu responder era que a mãe da Berenice estava morta há 10 anos.
A moça morreu naquela mesma noite. No hospital ninguém viu a tal mulher entrando ou saindo.

O MOSTEIRO DE SATANAS

                                 
 
                                  O Mosteiro de Satanás
1952, quinta feira, dia 23 de dezembro. Leonel sai de casa para passar o natal com a família no Rio de Janeiro. Nas estradas mineiras chovia como ele nunca tinha visto antes. Sozinho no carro Leonel sentiu um calafrio como se estivesse prestes a morrer. Na mesma hora ele parou o carro. Começou a sentir febre e a suar frio. Na estrada não passava um veículo e a chuva tinha apertado mais. Quase cego com a tempestade Leonel avista uma luminosidade não muito longe dali. Caminhando com dificuldade o pobre homem chega até o portão do queparecia ser um mosteiro franciscano . Ele bate na porta e grita por ajuda mas desmaia antes dela chegar.
Leonel acorda com muita dor de cabeça em um quarto escuro. Ele estava deitado numa cama simples e pela janela podia ver que a chuva não havia reduzido. Quando tentou levantar-se da cama a porta se abre e um homem alto vestido de monge entra no quarto. "Você deve deixar o mosteiro imediatamente." falou, com uma voz preocupada. "Estou doente, não podem me mandar embora deste jeito, por favor deixe-me ficar.", agonizou Leonel quase chorando. O monge não disse mais nada e se retirou do recinto. Preocupado em ter que ir embora Leonel se levanta e sai do quarto sorrateiramente. O lugar mais parecia um calabouço medieval. O coitado não sabia o que fazer. Por instinto Leonel  desce as escadas da masmorra. Uma voz o chama. Ela vem de uma cela, a porta está trancada e pela pequena grade um homem magro de cavanhaque conversa com Leonel. "Amigo, você precisa me ajudar. Esses monges me prenderam aqui e me torturam quase diariamente. E eles farão isso com você também se não fugirmos logo. Por fa..."Antes do sujeito concluir o monge alto grita com Leonel. "Saia daí!!!" agarrando-o pelo braço o monge arrasta o enfermo rapaz escada acima. O pobre Leonel não tinha forças para reagir e foi levado facilmente.
Já em uma sala gigantesca repleta de monges Leonel se vê como um réu sendo julgado. O franciscano que parecia o líder falou. "Rapaz, você deve ir embora imediatamente. Foi um erro nosso tê-lo deixado entrar aqui. Sabemos do seu estado de saúde mas não podemos deixá-lo ficar". Leonel mal ouviu o homem e desmaiou novamente. O infeliz viajante acorda mais uma vez na masmorra.
A porta do quarto estava aberta e Leonel sai a procura do homem que estava preso no andar de baixo. Sem vigília, ele consegue chegar até a cela do magrelo. Mal se aproxima e Leonel é surpreendido com o sujeito na pequena grade já pedindo ajuda. “Por favor, me tire daqui. Eles vão nos torturar, eles são de uma seita maligna. São adoradores de Satanás.” Tremendo como uma vara verde em dia de chuva, Leonel corre atéum pequeno depósito em busca de uma ferramenta capaz de abrir a cela. Minutos depois ele retorna com um imenso pé de cabra.
Com um pouco de esforço a porta é arrombada. O sujeito magro sai correndo da cela e rindo como se uma piada hilária tivesse acabada de ter sido contada. Sem saber do que se tratava, Leonel corre também, mas dá de cara com um monge de quase dois metros de altura. “ O que você acaba de fazer, maldito?!” Rugiu o franciscano. “Me solte! Me solte seu filho de Satanás!” Gritava Leonel tentando se soltar do agarrão  do monge. Com um olhar de temor e raiva o homem alto encara o pobre Leonel... “Você não sabe o que fez... sua vida está condenada agora. Você acaba de libertar o próprio Satanás. E ele fará de você o seu servo predileto. Sua alma será dele”. Logo após o monge ter terminado de falar Leonel dá um grito de pavor... seu último grito de pavor. Naquele instante o pobre e inocente viajante acaba de ter um fulminante ataque cardíaco que levou sua alma literalmente para  os quintos dos Infernos, ao lado do, agora, seu eterno mestre, Satanás.

O ESCOLHIDO



O ESCOLHIDO 
(Antimatéria) (Da série - “ Olaff Palmer: O viajante do Tempo. ”) Por Olavo Mattos       
Sinceramente o momento de maior tensão é o processo da decolagem, quando os motores e turbinas, a toda potência, vencem a força da gravidade, rompendo o ar, vencendo o arrasto na razão de subida, até o teto. São muitas as variáveis nesta equação. Meu nome é Klaus Werner Von Falles, 42 anos, doutor em física e astronomia, indicado ao premio Nobel, mas sem lograr o êxito, talvez a concorrência daquele ano tenha me impedido de chegar à Suécia. Talvez, se fosse judeu e não fosse brasileiro, já o teria ganho há muito tempo. Apesar de pais alemães e esse nome bárbaro, sou brasileiro nascido em Salvador-BA, quando meu pai, empresário, foi cônsul honorário da Alemanha por alguns anos, naquela cidade. Mais de trinta anos sem retornar ao Brasil, estou indo de volta para averiguar um sinal eletromagnético, que captei na semana passada. Estava estudando astronomia com o telescópio da universidade de Berlim, quando um sinal estranho me chamou a atenção. Observando melhor, notei que indicava um ponto específico no hemisfério sul, no qual me pareceu estranho. Analisando os dados astronômicos e convertendo-os para coordenadas geográficas, constatei que estava exatamente na região da Chapada Diamantina, centro do estado da Bahia, no Brasil. Após alguns estudos, constatei sua veracidade, o que me encheu de curiosidade a respeito. Consegui também, com uso de um amplificador de sinais, demodular alguns sinais audíveis, como uma espécie de mensagem, ainda indecifráveis para mim. Em velocidade e teto de cruzeiro, já em pleno voo, fui tentar dormir para descansar e passar o tempo. Já acordei em pleno processo de descida e não precisa ser um físico renomado, para saber que o pouso, com certeza, não deixa de ser, também, um procedimento preocupante, pois não se pode errar e não estar no comando nessas horas, me provoca dúvida. Aterrissagem feita, passei pela alfândega e aluguei um carro no próprio aeroporto de Salvador; como não tenho parentes no Brasil, me dirigi para a Chapada Diamantina de imediato. Com informações e um mapa em mãos, sete horas depois estava lá, parei num posto de combustível e pousada, chamado Pai Inácio, como já estava escuro, jantei e fui dormir. No dia seguinte, contratei um guia no mesmo posto, e pelas coordenadas seguimos viagem até um determinado ponto, onde começamos a subir um morro para o ponto equidistante. Realmente senti uma grande energia naquele local, e ficando mais forte à medida que se ia subindo. Paramos o veículo num determinado patamar e continuamos o resto da subida a pé. Chegando ao cume, instalei os equipamentos que trouxe comigo e ficamos esperando algo acontecer. Acampamos no alto do maior morro da região, com uma espécie de barraca ou tenda, fiquei olhando aquele céu maravilhoso, há muitos anos não via um céu tão completo assim, a olho nu. Horas se passaram e de repente o meu medidor de ondas eletromagnéticas deu um sinal. Como falo algo que se parece muito com o português, disse para o guia ficar calmo, e que estava tudo sob controle. O instrumento deu um alarme sonoro, então corri, peguei uma pequena antena parabólica e apontei para cima, quando uma nuvem com relâmpagos se formou bem no alto e uma luz concentrada desceu até onde estávamos. Caí no chão por simples medo do que presenciava ali e o guia sem pestanejar correu desesperadamente morro a baixo, sumindo na ladeira escura. Não podia me dar ao luxo de ter medo, então me ergui e fiquei olhando, perplexo, até a luz se apagar. Tudo sumiu, e alguns minutos depois da taquicardia provocada passar, descansei, e fui dormir. Pela manhã, quando acordei, coloquei o instrumental novamente no modo ativo e passei o dia inteiro dando um passeio pelo morro e a imensidão silenciosa do lugar. Quando a noite caiu novamente, acendi uma fogueira e me sentei. Meia-noite em ponto, tudo de novo, outra nuvem, relâmpagos e uma luz concentrada, bem perto da barraca montada, descia com o foco bem no centro do morro. Após um tempo me aproximei, a luz cessou e foi só. Por não ter mais ocorrências, já mais calmo, relaxei e deitei para tentar dormir. Na manhã seguinte, voltei ao local da convergência de luz e para o meu espanto, estavam encravadas no lajedo, algumas letras ou sinais. Cheguei mais perto e identifiquei o que estava escrito, milimetricamente talhado em baixo relevo: ”Vá para o litoral: 15°31,33’45”S, 38°56,34’32”O.” Estremeci dos pés a cabeça, caí no chão, fiquei mais de meia hora em estado de perplexidade total, não conseguia acreditar no que estava lendo, uma mensagem direta, legível e consciente... Difícil de acreditar, até mesmo para mim, um cientista filósofo e sonhador. “Ninguém vai acreditar, serei motivo de piadas em qualquer meio científico!” — disse em voz alta. Passado o choque, desarmei acampamento, desci e fui em direção ao litoral da Bahia, seguindo as coordenadas encravadas no chão do morro. Após oito longas horas de viagem, enfim cheguei perto do local geográfico, deixei o carro e fui a pé, pela praia, pois não tinha estrada nem caminho pelo continente. Apenas com uma mochila nas costas, levando água, alimentos, e com um GPS em mãos, parei no local indicado pela Lat./Long. À sombra de um coqueiro, sentei e percebi o quanto estava exausto, então dormi profundamente durante horas. Mesmo com todos os filtros solares preconizados, eu já estava vermelho, principalmente no rosto e nos braços. Dois dias ali, vivendo como um náufrago em praia estranha, e nada aconteceu, nem pessoas transitavam naquelas paragens, uma bela praia no meio do nada. À noite acendia uma fogueira, tomava banho num córrego de água doce perto dali e assim estava vivendo, tentando pescar e comendo cocos com sua saborosa água. No amanhecer do terceiro dia, ouvi um som agudo e estranho, olhei para a praia e uma onda do mar se formou mais alta, vindo, veio em minha direção sem arrebentar na areia. Ficou de pé na minha frente, com uns dois metros de altura; tentei não me assustar, respirei fundo, olhei e disse: — Estou aqui. Nada me respondeu, mas sabia que seja quem fosse, estava me analisando. Então novamente perguntei: — Não é o seu desejo? Fala-me quem tu és e o que queres. A onda, de pé, ganhou contornos mais arredondados e diante de mim respondeu: — Meu nome é Kalibahweitan. Naquele momento senti o mundo inteiro em cima de mim, o medo e a dúvida, tremeram as minhas pernas e caí na areia. Com a voz embargada, o adverti: —Olhe, sou forte. Você é agressivo? Eu posso me defender e lhe destruir. — Você pode me destruir? Então, pelo menos levante-se, sentado é mais difícil. — Você vai me matar? — perguntei com voz trêmula. — Se fosse fazer isso, por que lhe traria aqui? Foi quando dei por mim e comecei a pensar como um cientista. Pensei um pouco mais e lhe perguntei: — Se você não quer me fazer mal, o que quer? O ser respondeu com uma voz estridente e grave, bem pausada e sem errar um milímetro na pronúncia. — Prefere falar em que linguagem? — pergunta o ser estranho. —Você tem domínio da língua alemã? Pois português, só aprendi em cursos que fiz na Alemanha... Você conhece? — Conheço suas línguas e códigos. Sabe o porquê de estar aqui? — Não senhor, gostaria de saber... Vai invadir o mundo? — Já o invadi, você é mais do que isso que está dizendo. Se quisesse modificar ou destruir, não precisava nem entrar em contato. O principal motivo é o da nossa partida e escolhi você, para dizer algumas coisas que não sabe e lhe asseguro, não são boas, nem para a sua ciência, nem para esses viventes que são chamados de “humanos”. — É tão grave assim? — perguntei já mais tranquilo e ciente da situação. “Se esse pedaço de mar me falar coisas lógicas e que não conheço, já pode ser algo positivo” — pensei. — Para seu conhecimento, a esta distância, posso ouvir claramente seus pensamentos. Não sou um “pedaço de mar”. — Desculpe-me. Foi só um pensamento. Gostaria de saber o porquê de tudo isso — perguntei com muito cuidado. — Você sabe que está sendo seguido? — Eu, seguido? Por quem? — Ao mandarmos mensagens para você, não pudemos filtrá-las o suficiente para escondê-las totalmente, e os que se acham os donos do mundo, interceptaram alguns dos códigos; estão o perseguindo. Não vai demorar muito e estarão aqui, mas não se preocupe, só chegarão quando formos embora. O dia já estava claro, então pude ver melhor sua silhueta. Água com areia, tudo misturado e mesmo assim nem sempre o vejo bem, parece um espectro em gradiente com as tênues cores pastéis da areia. — Isso mesmo, você não pode me ver facilmente. — Realmente, você lê meus pensamentos. — Seu tolo humano, que nem seu próprio cérebro conhece. Tenho pesar da sua existência e a dos seus pares. Pena da escravidão física e mental imposta aos mais fracos, motivo pelo qual, pensamos em exterminá-los. Mas como a maioria de vocês não pensa ou age assim, resolvemos deixa-los por si mesmos. Naquele momento senti vergonha e uma grande paz, ao perceber que ele conhecia a espécie humana. Fiquei tão tranquilo que já não tinha mais medo. Olhei fixamente para aquele ser desconhecido e fiz uma pergunta: — De onde você vem, e sua sociedade? — Não temos mais isso que você chama de sociedade. Vou te explicar o início e o que está acontecendo agora. Depois você tira suas conclusões lógicas, acho que vai conseguir. — Ok. Acho que estou aqui para ouvir. — Vou tentar resumir utilizando seus códigos para que possa entender: “O universo era matéria pura, onde viviam diversos seres e civilizações em perfeita harmonia, apesar de todas as enormes distâncias, possíveis diferenças de costumes e origens. Eram trilhões de povos. Praticamente impossível aos seres comuns se deslocarem de um mundo para o outro.” “O pluriverso era formado de uma imensidão inimaginável de matéria e vazio, onde uma nova forma estrutural de matéria, estava a milhões de anos-luz de uma outra qualquer, gama de matéria. Tudo era formado de espaço(alfa), matéria(beta), o todo(gama), os seres pensantes e não pensantes(delta). Tudo em perfeita harmonia energética, mecânica e sensorial.” “Naquela imensidão inimaginável, viviam todos os tipos de povos e civilizações que, a não ser por alguma afinidade científica, nunca se misturavam e o sistema estava equilibrado.” “O pluriverso, estudávamos desde cedo, se constituía de matéria e vazio, massa e plasma. A massa, a matéria(o ser); o vazio, o plasma(o não ser); e assim sucessivamente até um fim de tão grande magnitude, que nem o maior dos maiores dos nossos estudiosos sábios, poderia explicar, apenas imaginar e filosofar...” “Numa ocasião, trezentos anos antes de acontecer(parâmetro do seu tempo), descobriram que um dos universos havia se desintegrado após uma grande explosão e que estava vindo de encontro ao nosso, em extrema velocidade. Foi uma grande aflição e desespero. Começaram a estudar, durante esses trezentos anos, qual seria a nossa solução. Implantamos sementes vitais em todos os pontos do nosso mundo, mesmo naquelas civilizações com conhecimento científico de menor desenvolvimento específico.” “Naqueles anos seguintes construímos uma nave espacial que, supostamente, aguentaria a explosão, desde que partisse trinta anos antes do contato inicial entre os dois universos. Foram escolhidos, em alguns clãs, seres de padrão morfológico elevado, e o resto dos oitenta e dois ocupantes da nave, eram de físicos, engenheiros e biólogos. Com grande euforia e pesar, partimos para o alfa(vazio). Sabíamos que em diversos mundos fora utilizada, também, a nossa mesma ideia. E foi assim que chegamos até aqui.” “Quando aquela força energética gravitacional chegou, com ondas eletromagnéticas em expansão, foi com uma densidade maior que todos os cálculos dos nossos cientistas, ocasionando o que vocês chamam hoje de big-bang. O nosso universo explodiu e nada sobrou, a não ser os pedaços... Um dos quais é este que você e eu nos encontramos, e que chamam de planeta Terra.” “Não conseguimos encontrar nenhum ser vivo oriundo da nossa civilização, por isso ficamos momentaneamente aqui, para descansar e estudar. Estamos analisando o comportamento do chamado ”ser humano”, há milhares dos seus anos. A metade da tripulação nunca saiu da nave, pela repugnância causada por vocês, durante esse tempo. A ganância e a estupidez, provocaram uma espécie de temor entre os remanescentes, tripulantes da nossa nave. Vivemos no fundo de um estreito de mar que chamam de Oceano Atlântico, nos alimentando da extensa vida marinha. Pela nossa diferença de densidade, não podem nos ver facilmente, quase transparentes, apenas de uma maneira turva, podemos ser percebidos. Desse modo, partimos várias vezes em excursões pelas suas diversas civilizações. O mar nos fortalece e pela areia salgada da praia, que, propositalmente, circula agora em nosso corpo, você pode, mesmo precariamente, nos ver.” “Apesar de grandes erros, você se tornou para o seu mundo, um cientista brilhante, e para nós, quando escreveu que o universo não pode se contrair ao chegar ao ápex e sugeriu que, o big-bang foi detonado por uma força externa, se tornou interessante. Depois da publicação de suas teses sobre o assunto, o analisamos e escolhemos você para falarmos algumas coisas, antes da nossa partida.” — Em que erramos, pode me dizer? — Toda a sua teoria atômica está truncada e mal explicada. Partiram de premissas falsas, tiraram conclusões lógicas delas e demonstraram o erro, buscando o resultado e explicando as exceções como perdas clássicas ou efeitos colaterais. Como desenvolveram arbitrariamente a sua fraca teoria, utilizando equipamentos e ferramentas dedicadas, feitas para isso, comprovaram o acerto cheio de falhas. O que vocês chamam de elétrons, espalham-se em densidade, as partículas não se movem, do nosso ponto de vista. São radiadores em transferência de energia. Melhor dizendo, a velocidade é tão grande que para vocês, nesta dimensão, estão parados. — Como chegaram aqui? Vocês dominam a velocidade da luz? — Antes de chegar a tal velocidade, terão que dominar a desintegração e reintegração dos corpos. Não se pode viajar na velocidade da luz sem se desintegrar e transformar-se em luz, por isso é necessário o domínio tecnológico da relação desintegração/reintegração, com a menor perda possível. Antes que me pergunte, quando se sai dessa velocidade, sempre há uma perda, que pode ser física ou psicológica. Por isso economizamos ao máximo, entrar nessa energia. “Massa sem momentum não tem energia, pelo contrário, é sua ausência total. O movimento é que dá energia à massa.” — Essa ignorância é um dos nossos maiores sofismas, então? — perguntei. — Tem outro ainda maior: sua ciência limitou a maior velocidade que existe, à da luz. Existem diversas outras velocidades maiores, porém, primeiro tem que se chegar a da luz. À medida que o corpo ultrapassa esta velocidade, vai perdendo brilho e a intensidade específica(entra em modo opaco). Ao se apagar completamente, o corpo em movimento, já está cem mil vezes mais que a velocidade da luz. Nesse momento, se entra no que chamamos de dimensão volátil. — Isso é realmente incrível. Seria o que chamamos de hiperespaço. — Mas esse processo tem um grande problema, é que, ao retornar a velocidade primária, inicial, em vinte por cento dos casos, há distorções físicas e psicológicas na tripulação e torções mecânicas na nave. E em muitas vezes, nem o retorno é possível. Tudo isso só poderia ser feito por vocês, se conhecessem o próprio cérebro. Existe uma filosofia de funcionamento entre o mundo e a mente. — Estamos muito longe disso... —lamentei. Então, o ser alienígena continuou sua terrível explicação. “Vocês ainda têm muito o que aprender. Nós estamos no lapso de tempo entre a grande explosão e o seu efeito. Por isso a confusão, toda massa conhecida pelos seres humanos, está em movimento.” “Normalmente aqui na terra, um segundo, mas pela magnitude do processo, este segundo, dura alguns milhões dos anos de vocês, por isso ainda existe a vida que estamos presenciando, já que estamos contidos no mesmo lapso temporal.” — Meu Deus! O que isso quer dizer? — perguntei admirado. — De um modo sintético, quer realmente a resposta? — Sim. Claro. — Está bem. Estamos todos mortos — respondeu. — Não consigo entender... — Estamos sob o domínio do tempo, entre a explosão do big-bang e o seu primeiro efeito, que é a desintegração total da vida e da matéria. Um segundo que na magnitude do pluriverso, dura alguns milhões de anos terrestres. Todos nós já morremos! Quando descobrimos isso, paramos de procurar por nossa civilização. O movimento de translação ao ápex, causará uma nova explosão no próximo universo, que desencadeará um novo big-bang. Não sabemos como começou, mas sabemos que esta reação em cadeia, causará o fim dos universos adjacentes, até uma nova e aparentemente utópica acomodação. — Isso quer dizer que todos nós, seres humanos, já estamos mortos, inexoravelmente? — não pude deixar de perguntar novamente. — Exatamente. Só nos resta saber o que vem primeiro: a desintegração dos compostos, que é a nossa expectativa atual, ou a colisão com o universo mais próximo adjacente. Causando um novo big-bang. — Pelo dito vocês estão muito mais adiantados em relação a nós, porque não fizeram contato? — perguntei, mas parece que já sabia a resposta. — Não vimos aqui para interferir. Descansar e estudar, no máximo, é a nossa intenção, apesar de que, em vários momentos, nos reunimos para discutir as vis atitudes dos seus semelhantes e comportamentos suicidas. Apenas como assistentes, das sociedades primordiais e atrasadas, nos mantivemos ao largo. Não entendemos como se utilizam de animais mais fracos para sustentar iniquidades, nem do abuso da ingenuidade do próximo e a perversão do bem comum, no desejo do poder, se apropriar do que não lhe pertence. — Entendo. Não somos seus descendentes? — Não. São oriundos de outro mundo — respondeu de imediato. — Pode me falar sobre a sua sociedade? — mudei o rumo da conversa, acho que ele não gostou da pergunta anterior. — Vivíamos da mineração, transferências e cultivo de alimentos, que eram abundantes e suficientes para nossa sobrevivência. Para o excesso, existia a transferência, uma espécie de comércio similar ao de vocês. A principal diferença, é que era tudo um mecanismo, bioconsolidado e na velocidade próxima a da luz. Investíamos muito no estudo do nosso mundo e suas relações, capacitando cientistas, biólogos, astrônomos, mineradores e governantes. Todos com um único propósito: o bem comum. — Isso aqui é utópico — balbuciei. — “Utopia”, é o que vocês leem e só conseguem implementar nos trabalhos escolares. Ao saírem da escola, entregam-se a ganância e ao espírito de competição. — Eu sei... E quanto a sua reprodução? — Nascemos sem gênero sexual definido, e vivemos a primeira infância de uma maneira geral. No final da segunda infância, e início da puberdade, escolhemos o nosso sexo, e a partir daí, desenvolvemos características delta-Y ou delta-X. Não existe dúvida quando o próprio escolhe livremente, por aptidão. Estatisticamente, existe uma ligeira preferência pelos delta-Y(para vocês masculinos), mas nunca passou de 5%. Desenvolvemos nosso sexo com o tempo, a partir do nosso desejo, assim evitamos qualquer tipo de erro ou incongruência. — Espetacular. E quanto à divisão de trabalho? — Os delta-Y preferem as minas de Kobailitan, nosso mais comum e rico mineral, construções e transferências. Os delta-X(para vocês femininos), estão também inseridos, mas procuram os trabalhos mais suaves e intelectuais. —Eu estou te vendo quase transparente, sem braços, sem pernas, como se movimentam? — Não precisamos de meios tão rudimentares para locomoção. Quando necessitamos de prolongamentos, para uma determinada tarefa ou função, o criamos momentaneamente. Nosso maior e mais utilizado membro é o que vocês chamam de cérebro. Percebi o tom de crítica do visitante, mas não pude discordar. Com jeito e receio, perguntei: — Você pode se materializar? Mesmo que só por um momento, gostaria de vê-lo, além de uma turva gelatina de areia e água salgada. Aquela silhueta quase transparente, parou por um momento, e depois de alguns segundos, respondeu: — Vou tentar parametrizar minha imagem com a de vocês, isso pode demorar algum tempo, pois nunca o fiz. A imagem do ser extraterrestre, foi ficando cada vez mais nítida, com contornos humanos, parecia estar ficando de “carne e ossos”, e pude aos poucos vê-lo. Para o meu espanto, ele era um delta-X. — Você é mulher! — falei em tom de espanto. — Sou, aliás se fosse humana, teria quase esta forma, e nas dúvidas completei ao seu gosto. Aquela mulher dos seus sonhos, o que você espera do seu oposto. Captei em seus pensamentos, só assim pude me materializar perfeitamente e apresentar-me. — Meu Deus você é perfeita. — deslumbrado, deixei escapar. — Cuidado terreno, já tenho um companheiro e ele sempre foi voto contrário, não tem simpatia pelos humanos. — Você tem senso de humor, espantoso. — falei admirado. — O que pensa que somos, humano? Temos humores e nesse quesito somos ligeiramente parecidos. — Até sua voz ficou doce... Não dá para você se cobrir? Está nua e não consigo me concentrar. — Vou tentar me cobrir nos moldes dos seus semelhantes. Um biquine cor de areia envolveu o seu corpo maravilhoso, estava completamente apaixonado por aquele ser espacial. A mulher mais linda que vi em minha vida..., se aproximou de mim e falou: — Humano, me dê um beijo e veja o universo. Tremi, num instante de medo e curiosidade. Fomos nos aproximando e colamos os nossos lábios, então dei um beijo naquele ser que veio do espaço. Durante o delicioso beijo, vi o universo diante de mim, com todas as galáxias, sóis e planetas. Vi sua nave em construção, a saída e a viagem pelo alfa, até sua misteriosa chegada a Terra. A expansão do nosso universo conhecido à minha frente, viajava com eles..., me senti como um cometa na mesma velocidade das galáxias. Nestes instantes, vi a olho nu, toda a imensidão do nosso universo, e como um espectador, observei, o clarão do infinito. Desmaiei sem forças e algum tempo depois, quando acordei, estava ela me olhando fixamente, e ao seu lado, mais um espectro gelatinoso de areia, também me observava. Deduzi que era o seu par, como já havia me falado, seu companheiro de vida. Estavam conversando uma linguagem incompreensível, parecia um grunhido em código Morse. Incompreensível e quase inaudível, porque aparentemente não precisavam de deslocamento de massa de ar para se comunicarem, mas como ela estava em forma humana, pude perceber. O que falavam, não entendi, mas pelo seu rosto, não se tratava de coisa muito agradável. Num dado momento, ela se virou pra mim e disse: — Klaus Werner Von Falles, temos que ir embora, os intrusos estão aqui. Anote o que lhe falei e tente melhorar o mundo, pelo menos, até ele se acabar por completo. Não deve demorar muito tempo. Ouvi aquelas palavras, pensei nas imagens há pouco vistas..., e sabendo que já estava morto, pedi: — Deixe-me ir com você — disse do fundo do coração — Não tenho nada aqui, que me prenda. — Pobre criatura — respondeu Kalibahweitan, com voz doce — Deixe eu te dizer uma coisa... Quando me parametrizei, inclusive dos seus pensamentos, senti que você seria o ser ideal para mim, no mundo carnal e humano onde vive; logo, também estou apaixonada por você. Mas eu não sou carnal, você viu como sou realmente, nunca poderíamos nos tocar para nenhum tipo de contato físico, muito menos para a preservação. Além do mais seria um despropósito diante do exposto. Algo tão estranho assim e sem consequências, não valeria à pena, aliás, que amor suportaria a falta de contato e a morte? Nem o de vocês, que admiro, conseguiria se sustentar por muito tempo. — Mas você é de carne e ossos, agora. Não pode ficar assim para sempre? — Minha criança humana, a energia que estou dissipando com essa forma humana, a cada hora, daria para energizar uma de suas cidades com cem mil habitantes, durante um dia inteiro. — Mas você me disse que massa não é energia, não foi? — Sim, estática. Mas estamos navegando em alfa, onde toda massa desfruta de energia cinética e cósmica. Sei que você entendeu da primeira vez, é a sua razão sendo dominada pela emoção, tão típico de sua espécie. Nesse momento o outro ser se materializa, ganha contornos humanos e para o meu espanto ele é igualzinho a mim, o mesmo corpo. Até as rugas, dos meus quarenta e dois anos, ele tinha em sua face. Se aproximando de mim, abraça-me. Depois de um longo abraço, me diz calmamente: — Escolhemos você para dar, essa terrível notícia. Não sabemos como poderá compartilhar com os outros, tamanha desilusão. Faça valer a pena tudo que aprendeu aqui e todos os riscos que corremos. Você foi “o escolhido” e faça o que quiser dessa informação. — Porque colocaram este peso nas minhas costas? — Esta resposta só Kalibahweitan pode te dar, e ela já disse. — Qual o seu nome? — Kalamanweitaff. A pronúncia mais próxima que você pode entender. — Obrigado por responder. Para onde vocês vão? — Captamos, com o uso dos nossos instrumentos, uma nuvem cósmica num quadrante próximo a Alfa do Centauro, nome dado por vocês, algo que pode ser resquícios da nossa civilização. — Impressionante, como nunca conseguimos captar suas frequências? — Porque estão fora do seu espectro conhecido e não têm instrumentos capazes de demodular. Nesse momento, Kalibahweitan se aproximou e com aquela doce e suave voz, falou: — Kalamanweitaff, chegou a hora de partirmos. Ele, ou eu, nem sei mais, deu um sinal para ela, virou-se novamente para mim e falou: — Klaus Werner Von Falles, dê-me um beijo, quero te mostrar uma coisa. Ao ouvir o que Kalamanweitaff disse, Kalibahweitan, falou um pouco apreensiva: — Acho melhor não fazer isso. Não vejo razão; por que colocar essas coisas na cabeça dele? — Ele merece saber mais sobre o seu mundo, mesmo que as informações sejam aparentemente inócuas, assim terá mais respaldo para, se for o caso, debater sobre os temas. Aquela pessoa linda e maravilhosa, pensou um pouco e fez um sinal de positivo. Então, Kalamanweitaff se aproximou e me deu um beijo, era como beijar o meu espelho. Naquele momento vi o mundo inteiro passar diante de mim, em todos os tempos e situações, desfrutei a oportunidade de conhecer as civilizações, seus reis e mandatários. Tive acesso aos pensamentos e atitudes dos líderes e os anseios dos povos, nas mais diversas épocas e costumes do mundo terrestre. Desde antes da ocupação na Mesopotâmia, passando pelo Oriente, Europa, até os dias atuais. Foi tanta informação que, por um momento, perdi novamente os sentidos. Quando acordei os dois olhavam para mim e rindo Kalamanweitaff disse: — Agora você sabe a história do seu mundo, a verdadeira, não as que estão nos livros, muitas vezes censuradas por suas crendices religiosas, motivações culturais e acertos políticos. — Meu Deus, agora eu sei de tudo. Consigo ouvir as vozes, palavras, e ver os atos de reis e mendigos... Mal terminei de falar e meu amor, Kalibahweitan, me advertiu: — Se esse mendigo que você fala é aquele que nasceu há dois mil anos, sugiro que fique apenas para si, não convém falar mais nada sobre o assunto. — Está bem — respondi. — Não falarei com mais ninguém sobre aquele tempo e o ocorrido, realmente. Foi ali que vi a extensão da imparcialidade desses visitantes galácticos. E ela continuou: — Como se sente? — Decepcionado. — respondi imediatamente. — Foi o que pensei. Cuidado com as informações que lhe demos... e adeus. — Por que tão rápido? Ainda não anoiteceu — disse, já me sentindo só. — A sua polícia federal e os agentes dos predadores do mundo, estão a dez minutos daqui; vamos entrar no mar e partiremos em seguida para o Centauro. Dois seres fantásticos diante de mim se despedindo, quanta honra. Não sabia nem o que dizer. Apertei a mão de Kalamanweitaff e disse para Kalibahweitan o seguinte: — Gostaria de lhe passar uma informação, posso? Ela se virou para Kalamanweitaff, riu, volveu e me respondeu: — Pode me dizer. — Me dê um beijo para eu lhe mostrar... Ela encostou-se em mim, colou seus lindos lábios nos meus e dei um longo beijo... Depois de um tempo, separamos, e abri os olhos. Ela estava olhando para mim e perguntou: — O que queria me mostrar? — Lhe mostrei, através deste beijo, o que é o amor verdadeiro dos humanos. Ela riu satisfeita e falou: — Klaus Werner Von Falles, agora consigo sentir e entender que, apesar das imperfeições humanas, existe algo de bom pelo qual se vale a pena lutar. Se você me ama, eu também te amo. Obrigado por me mostrar, fisicamente, o que só imaginava. O amor, foi o que me conteve ao extermínio de sua espécie. Ele se justifica. — O que farei sem você? — perguntei num profundo lamento. — Vejo que descem lágrimas dos seus olhos... Você vai encontrar alguém para enxugá-las, prometo. Seja feliz enquanto tiver consciência e respirar... Ela se afastou e os dois foram vagarosamente entrando no mar, transformando-se novamente em mais duas ondas no sentido Atlântico..., sumiram naquelas mornas águas do mar da Bahia. Ajoelhei e comecei a pensar em tudo que vivi nesses dias, os mais importantes da minha vida. Alguns minutos depois fui achado e cercado por militares que desesperadamente faziam, com instrumentos, uma minuciosa varredura no local. Fui indagado e disse que nada sabia e nada tinha acontecido, apenas estava em turismo, passeando pela praia. Comecei a falar em português fluente e o meu inglês estava sem sotaque alemão. Ela me deixou um legado... Que saudade! Fui levado para falar com o comandante da missão, sei lá o quê, e uma vez diante dele, todo fardado, me perguntou: — O que o doutor faz aqui? — Estou em passeio — respondi cinicamente. Aprendi que responder com cinismo a quem pensa que sabe, é a melhor forma de colocar mais dúvidas. — Ora doutor, não me diminua, sabemos o motivo, não é? — Então porque pergunta? — Sei que você esconde algo. — Primeiro você não sabe, segundo não vai saber, terceiro, estou indo embora. Sou um cidadão alemão, fazendo turismo na Bahia, apenas isso. — Não posso reter você aqui, vá embora. Mas saiba que não terminou. — Ok. Marque hora na embaixada. Um abraço! Deixei o comandante gritando com os subordinados, em busca dos rastros que se apagaram pelas rebeldes ondas da maré enchente. Fui embora andando pela areia da praia. Sei que estarei sendo vigiado, mas por agora, só quero um hotel para descansar e dormir. Hospedei-me num hotel da cidade mais próxima e dormi durante vinte e quatro horas seguidas. Acordei com fome, comi muito e, já praticamente restabelecido, peguei o carro alugado e retornei a Salvador, para voar de volta a Alemanha. Dirigindo muito triste e pensativo, apesar da beleza do litoral da Bahia, pernoitei na cidade de Santo Antônio de Jesus. No jantar, fiquei sabendo que Salvador estava em festa, uma festa muito grande de carnaval e, pelo visto, bem maior que o de Veneza. Então resolvi passar um dia a mais, para conhecer este carnaval. Chegando a Salvador, me hospedei num hotel e fui pensar e descansar à beira da piscina. Estava num conflito muito grande, como iria dizer e escrever para o mundo, tudo que sabia? Seria o arauto das notícias mais terríveis da humanidade, sem falar de todos os erros científicos que até hoje são ditos como verdade. Como lidar com isso, o que fazer? Queria que Kalibahweitan estivesse comigo, vê-la ao menos, pela última vez... Eram três horas da tarde, quando decidi ir ao centro da cidade para ver, e conhecer o carnaval. Entrei num taxi na porta do hotel e, chegando ao centro, deixei o taxi, subi uma ladeira, e já estava na praça municipal. Cheguei perto do elevador Lacerda, olhei a cidade. Por um momento, senti orgulho de ter nascido em Salvador; ao ver tanta beleza, senti muita paz. Fiquei um pouco melancólico analisando a terra da felicidade..., da boa terra do coco, que tanto o bebi na praia; da choupana onde um é pouco, dois é bom e três é demais. Aprendi muitas coisas sobre a Bahia, por simples curiosidade. Tudo em vão, sem futuro e só eu sei. Meu pai quando brigava comigo, dizia que eu era baiano, mas ele não sabia que talvez fosse um elogio... É só chegar aqui e dar uma boa olhada. As pessoas estavam indo para um lugar chamado Pelourinho. Então fui também para lá, um lugar ímpar, medieval baiano, com um casario específico daquela época. Foi quando eu vi a alegria materializar-se em gestos e danças, estava presenciando uma brincadeira onde negros, brancos, mestiços e índios estavam lado a lado, numa só alegria. Eu, um cientista alemão, branco, 1.85m de altura, todo vermelho de sol, comecei a pular junto e todos pareciam irmãos, uns cuidando dos outros para não cair. Uma música animada que promove a dança, chama até a miséria, para dançar. Naquele momento não pensava em mais nada, libertei minha mente. Se felicidade existe, não deveria estar muito longe dali. Sei que onde tem muita gente boa, também tem o perigo, ainda mais quando passou um folião bêbado e gritou: “na Bahia até a miséria te chama pra ser feliz”. Depois dessa, fiquei um pouco ao largo da folia, encostado numa igreja para me recompor depois de horas de exercícios, pois dançar seria muita pretensão. Na verdade, quando chegava alguém bem ou mal intencionado, eu falava um português tão bom que se afastavam, pensando talvez, que eu fosse da chamada “boa terra”. Na verdade eu sou, aliás, muita gente riu do meu jeito desengonçado, mas falando sua língua fluentemente, não me tomavam por gringo. Pra mim, estava ótimo. Aquele poderia ser meu último surto de felicidade. Foi naquele descanso de meia hora que eu vi passar na minha frente uma linda mulher, olhei novamente e a reconheci. Era Kalibahweitan. Desci as escadas correndo e gritei seu nome: Kalibahweitan! Ela se virou e respondeu em alemão: — Está falando comigo? Me aproximei devagar, cheguei bem perto e a vi na minha frente. Era ela. O corpo e o rosto. Senti um nó na garganta, não sabia o que dizer... Ela volveu e continuou andando, fui indo atrás pensando em todas as possibilidades, quando me lembrei da promessa de Kalibahweitan. Será que ela cumpriu a promessa? Adiantei o passo e falei novamente: — Oi meu nome é Klaus, sou alemão, moro em Berlim. Ela parou, se virou, riu e disse: — Meu nome é Evelise, sou alemã, moro em Leipzig. — Passando férias no Brasil? — perguntei. — O que você acha? — Ok. Acho que sim. Posso te acompanhar? Você está solteira? — Pode me acompanhar sim e estou solteira. Começamos a passear pelas ruas de Salvador, conversando sobre a festa e a felicidade do povo. Em pouco tempo estávamos quase íntimos, ela me apresentou seus pais, que estavam hospedados num hotel na praça do Campo Grande. Descemos para o farol da Barra e nos divertimos ainda mais. Disse-me que é médica em Leipzig, mas estava de mudança para Berlim.  Incrível como tudo se encaixava, mal conseguia olhar para ela, sem demonstrar grande emoção. Saímos de mãos dadas pelas ruas naquele dia, e nos dois dias que se seguiram de carnaval. Fomos para o aeroporto de Salvador juntos, no mesmo voo para a Alemanha. Quando a aeronave começou a alçar voo, com toda potência, já não tinha mais medo de nada, nem razão de subida e muito menos o arrasto. Estava ali, junto de Evelise, dei uma olhada para a terra da felicidade e confirmei toda a sua magia. É bom ser brasileiro. Kalibahweitan me pregou uma peça tão linda quanto ela. Quero viver cada momento como se fosse o último, eu mereço ser feliz e o mundo também. Vou viver com esse segredo, não direi nada do que aconteceu e espero que todos sejam felizes até o momento crítico. Afinal, todos nós estamos mortos mesmo.Exercicios para Barriga